Libertar Gatos Fiv/Felv Positivos
A Associação Animais de Rua, à semelhança de praticamente todas as associações europeias e americanas de TNR (Trap-Neuter-Return), em português CED (Capturar-Esterilizar-Devolver), opõe-se à eutanásia de gatos silvestres/assilvestrados simplesmente pelo facto de terem sido submetidos a testes que acusam o vírus FIV ou FeLV.
Acreditamos que, se o gato não mostra sinais activos da doença, deve ser libertado novamente na sua colónia de origem, independentemente do resultado dos testes. De facto, por sabermos que iremos libertar o gato de qualquer maneira, não chegamos sequer a fazer o teste.
As razões para assumirmos esta postura são várias:
1. Em primeiro lugar, nós não eutanasiamos gatos FIV/FeLV positivos assintomáticos, porque acreditamos que têm tanto direito à vida como qualquer outro ser. A Eutanásia define-se como a morte misericordiosa de um ser em sofrimento, e não como a morte imposta por conveniência ou preocupação relativamente a possíveis futuras consequências. Demasiadas vezes, no que toca a gatos silvestres/assilvestrados e outros animais, recorre-se à eutanásia como solução para qualquer problema – por não haver família que os acolha, por os tratamentos serem demasiado dispendiosos, etc. No nosso ponto de vista, estas acções demonstram uma falta de respeito pela vida.
2. Os resultados dos testes iniciais não são 100% fiáveis, mas no caso dos animais silvestres/assilvestrados, as decisões de vida ou morte são frequentemente tomadas baseadas apenas no primeiro teste. A questão da fiabilidade difere dependendo de vários factores.
No caso do FIV, a maioria dos veterinários usa o teste ELISA (Enzime Linked Immunoabsorbent Assay) que detecta se os anticorpos FIV estão presentes no sangue – não se o vírus em si está presente. Como resultado, o teste é completamente falível para gatos com menos de 6 meses de idade, que podem ter recebido os anticorpos FIV da mãe lactante, mas que podem nunca ter estado expostos ao vírus em si. Para gatos adultos, devido à recente introdução da vacina FIV, existe agora a possibilidade de um teste positivo ser resultado da vacinação e não da infecção em si.
Para o FeLV, o teste ELISA é de novo e quase sempre o teste inicial utilizado. Em contraste com o FIV, o FeLV ELISA não detecta anticorpos, mas antes se o antigénio do vírus está presente no sangue. Por outras palavras, um teste positivo indica a presença do próprio vírus FeLV no sangue. Contudo, o teste é extremamente sensível e propenso a falsos positivos por manuseio impróprio. Além disso, um gato, nas fases iniciais da infecção FeLV ainda pode conseguir vencer o vírus. A doença não é incurável até ao momento em que entra nos glóbulos brancos do gato, o que só um outro tipo de teste, o teste IFA (Immunofluoresence Assay, também conhecido como o teste da talhadeira) pode determinar. O teste IFA tem de ser feito em laboratório e é mais dispendioso. Consequentemente, se um gato parece saudável, um teste ELSA positivo, deverá ser sempre confirmado com um teste IFA. Só se outros graves sintomas patológicos de FeLV estiverem presentes é que um teste ELISA inicialmente positivo pode ser fiável por si só.
Pelo exposto, a prática de matar gatos com base num único teste leva inevitavelmente à morte de animais que nunca estiveram infectados ou que poderiam, com sucesso, e com tempo suficiente, conseguir debelar a infecção.
3. Os gatos FIV positivo muitas vezes vivem vidas longas e não chegam sequer a manifestar qualquer sintoma de doença. A taxa de mortalidade é maior para os gatos FeLV positivo, que normalmente contraem a doença ainda em gatinhos. Um estudo mostrou que a maioria morre entre o segundo e o terceiro ano de vida (33% aos 6 meses, 63% com 2 anos, 83% com 3 anos e meio). No entanto, enquanto estão vivos podem viver sem sintomas se bem nutridos e abrigados.
4. Eutanasiar os animais infectados é ineficaz na gestão de uma colónia. Remover um gato positivo de uma colónia não elimina o risco de infecção nos outros gatos, que muito provavelmente já estiveram expostos ao vírus.
5. A principal causa de infecção está relacionada com a gestão inapropriada da colónia. Através da nossa experiência, concluímos que as colónias com muitos gatos doentes são aquelas que estão a ser pior geridas – má nutrição, abrigo inadequado e/ou animais por esterilizar. Estas condições conduzem a sistemas imunitários enfraquecidos e susceptibilidade à doença. De facto, alguns veterinários acreditam que é raro um gato adulto saudável contrair FeLV. A melhor maneira de prevenir a propagação da doença é melhorar a qualidade da alimentação da colónia, assegurarmo-nos que os gatos têm um abrigo quente e seco no inverno, e esterilizá-los.
A esterilização ajuda por duas razões. A principal forma de transmissão do FIV são as feridas provocadas por mordidas profundas e os gatos esterilizados tendem em não se envolver em lutas. O FIV também pode ser transmitido por uma mãe infectada aos seus gatinhos se esta tiver estado exposta ao vírus durante o período de gestação ou de aleitamento. Em raras ocasiões, o FIV pode também ser passado para as fêmeas através de sémen infectado. Ora, a esterilização elimina os gatinhos e a relação sexual, e como tal elimina também estas formas de transmissão. No que respeita ao FeLV, os gatinhos estão mais susceptíveis à infecção devido ao seu sistema imunitário ainda pouco desenvolvido. Mais uma vez, a esterilização, ao acabar com o nascimento de novos gatinhos, elimina esta possibilidade.
6. Testar é um desperdício de recursos. A literatura mostra que a prevalência de resultados positivos nos testes FIV e FeLV na população selvagem é baixa e a mesma que na população doméstica (cerca de 4% para FeLV e 2% para FIV). Assim, para identificar 6 testes com resultado positivo, significa que terão de se pagar os testes de 100 gatos. Mesmo realizando os testes a baixo custo - cerca de €9,20 ($12) por gato – contabilizando o total do montante gasto em testes equivale a um gasto de €920 ou €153,33 por gato infectado. E, mesmo aí, não haverá certeza que mesmo os 6 gatos que acusaram positivo no teste tenham realmente a doença, venham alguma vez a ficar doentes ou sequer a venham a transmitir. Num momento em que existe uma crise de superpopulação de gatos silvestres, este dinheiro será mais eficazmente utilizado na esterilização e gestão apropriada das colónias.
Nota: a vacina para o FIV não está ainda disponível em Portugal.

